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julho de 2016
“Qual a cor da minha aura?” – era uma das perguntas que
Arthur Bispo do Rosário(1911-1989) fazia para testar quem tentava
visitar a cela que ocupava sozinho em um dos pavilhões da Colônia
Juliano Moreira, centro psiquiátrico onde viveu por meio século,
diagnosticado como “esquizofrênico-paranoico” depois de, durante um
surto psicótico, ter invadido um mosteiro dizendo-se enviado de Deus.
Aos poucos que ele permitia entrar em seu “castelo”, como chamava sua
cela-ateliê, apresentava suas assemblages (colagens com objetos
tridimensionais, como embalagens de plástico, garrafas e outros resíduos
descartados nos arredores da colônia), estandartes e roupas feitos com a
linha de uniformes, bordados com palavras, nomes e textos de conteúdo
místico. Um desses escritos – “Que venham as virgens em cardumes” – e a
pergunta-senha de Bispo dão título à exposição Das virgens em cardumes e da cor das auras,
reunião de 60 trabalhos do artista aberta para visitação até 2017 no
Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea, que funciona em um dos
prédios da colônia.
Além das obras de Bispo –
dentre as quais se destacam oito estandartes que foram exibidos juntos
pela última vez há mais de 30 anos –, a exposição traz instalações e
apresentação de performances de artistas contemporâneos que de alguma
forma se relacionam com Bispo. A performance que abriu a mostra em
junho, de Eleonora Fabião, consistiu num cortejo pelas dependências da
colônia, levando trabalhos emblemáticos de Bispo numa caixa de acrílico:
começou com o Manto da apresentação – uma mortalha que ele
bordou ao longo da vida para, dizia, vestir quando encontrasse Deus no
juízo final –, e terminou com o fardão Eu vim, que traz bordada
a data que ele considerava seu verdadeiro nascimento: hora, dia e ano
do surto psicótico que resultaria em sua internação, em 1938. Dentre as
instalações, destaca-se o Materializador de sonhos, de Nadam Guerra: dezenas de placas de cerâmica que retratam sonhos contados ao artista.
De acordo com a curadoria, a arte performática dialoga diretamente com a obra de Bispo – ele, em si, um performer
que circulava pela colônia usando suas próprias produções. Esse aspecto
é evidenciado pelas fotos feitas pelo fotógrafo francês Jean Manzon em
um ensaio com Bispo para a revista O Cruzeiro nos anos 40, que estão
sendo expostas pela primeira vez. As performances ocorrerão no último
sábado de cada mês e serão filmadas e exibidas nos demais dias. Os
materiais usados nas apresentações, em vez de descartados, serão
acumulados até o último dia da exposição – uma referência clara ao
trabalho de Bispo, que utilizava o lixo como matéria-prima para, segundo
afirmava, representar “o material existente na Terra de uso do homem”.
Os cenários das performances serão as galerias do museu, dependências do
antigo hospital psiquiátrico e áreas externas da colônia, hoje tombada
pelo Patrimônio Histórico. A curadoria criou um mapa com as áreas da
colônia que podem ser visitadas para conhecer melhor o lugar onde viveu
Bispo, caso o espectador queira explorar os prédios de forma
independente ou por visita guiada.
Das virgens em cardumes e da cor das auras.Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea.
Colônia Juliano Moreira. Estrada Rodrigues Caldas, 3400, Taquara, Jacarepaguá, Rio de Janeiro.
De terça a sábado, das 10h às 17h. Informações: (21) 3432-2402. Grátis. Aos sábados, há ônibus direto do Museu de Arte Moderna (MAM) até a colônia, por R$ 20. Até janeiro de 2017.
Colônia Juliano Moreira. Estrada Rodrigues Caldas, 3400, Taquara, Jacarepaguá, Rio de Janeiro.
De terça a sábado, das 10h às 17h. Informações: (21) 3432-2402. Grátis. Aos sábados, há ônibus direto do Museu de Arte Moderna (MAM) até a colônia, por R$ 20. Até janeiro de 2017.
Esta matéria foi publicada originalmente na edição de julho de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/29SXuYj
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Em O homem de La Mancha, Miguel de Cervantes é internado em um manicômio e cria uma peça para “loucos”. A estética é inspirada nas obras do artista brasileiro que viveu em um centro psiquiátrico
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As artes de Arthur Bispo do Rosário
Com diagnóstico de esquizofrenia-paranóide, ele viveu recluso por meio século e morreu há 20 anos, mas sua obra atravessou os muros da instituição psiquiátrica e obteve reconhecimento
Com diagnóstico de esquizofrenia-paranóide, ele viveu recluso por meio século e morreu há 20 anos, mas sua obra atravessou os muros da instituição psiquiátrica e obteve reconhecimento
POST ORIGINAL
http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/um_passeio_pela_vida_e_obra_de_bispo_do_rosario.html
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