Arthur Bispo do Rosário: louco(?), gênio, na contramão manicomial
Por Thayara Castelo Branco
// Coluna Liberdades
No mês de luta antimanicomial[1] no Brasil, a coluna Liberdades faz uma singela homenagem a um dos artistas mais incompreendidos da história da arte brasileira. Personagem do imaginário coletivo, declarado “louco” e desconstruído como gênio, Arthur Bispo do Rosário[2] deixou rastros de sua trajetória, com trilhas nebulosas, passíveis de diversas interpretações.
E como as obras de Bispo talvez expliquem sua vida, e não o contrário, para tentar recuperar sua memória (em pequenas pinceladas), já diria Marta Dantas[3], é preciso analisar sua atitude perante a finitude da vida que nos dará a dimensão da relação que sua obra tem com a vida , pois ela nada mais é do que a finitude desta se abrindo para a finitude da arte. É uma interação de vida e obra, como articulação de natureza expressiva, partindo das criações para tentar compreender sensibilizadamente o criador. E assim também escreveu Merleau-Ponty[4] sobre Cézanne, afirmando que “é certo que a vida de Cézanne só encontrava equilíbrio apoiando-se na obra ainda futura, era seu projeto e a obra se anunciava por signos premonitórios que erraríamos se considerássemos causas, mas que fazem da obra e da vida uma única aventura”.
Em 1925, com 15 anos, alistou-se na Escola de Aprendizes de Marinheiros de Sergipe, começando sua carreira nos serviços de manutenção e limpeza das embarcações. Em 1930 subiu de hierarquia, sendo promovido a sinaleiro-chefe-B, função que exerceu até o seu desligamento, por indisciplina. Bispo contava que havia sido boxeador e que chegou a conquistar o título sul-americano da categoria. Em 1933 foi admitido no Departamento de Trações de Bondes da Viação Excelsior, como lavrador de bondes, local em que sofreu dois acidentes de trabalho. Na época morava na praça XV (centro do Rio de Janeiro) e logo depois, ao ser demitido, conheceu Humberto Leone, advogado que lhe acolheu em sua mansão e virou seu empregador. Era o faz-tudo da casa; um empregado fiel e dedicado. Na semana do natal de 1938, Bispo teve sua primeira visão: “um grupo de anjos apareceu e comunicou-lhe o que não deveria ser mais segredo: ele havia sido eleito pelo Todo-Poderoso, e sua missão na Terra consistia em julgar os vivos e os mortos e em recriar o mundo para o dia do Juízo Final. Na noite de 22 de dezembro, guiado por imagens e vozes saiu em peregrinação mística pela cidade”[6].
Bispo do Rosário foi internado primeiramente no Hospital Psiquiátrico D. Pedro II[7] (em 1938) e pouco tempo depois foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, onde lá recebeu o carimbo de esquizofrênico-paranóico, título que o consagrou como perigoso, indesejado e excluído social. No começo dos anos 60 trabalhou na Clínica Pediátrica Amiu, onde viveu em um quartinho no sótão e ali iniciou seus trabalhos com materiais rudimentares, produzindo navios de guerra, automóveis e vários bordados. Em 1964, regressou à Colônia[8], permanecendo por 50 anos, até a sua morte.
Num local onde o que menos havia era portador de sofrimento psíquico, Bispo, quando estava em fase sociável, ajudava os funcionários na manutenção da ordem do pavilhão. Apesar do isolamento[9] – num espaço de quase 8.000km² onde ficava a Colônia – conseguia aquecer um “mercado subterrâneo”, que funcionava como um escambo, onde conseguia normalmente materiais para suas criações. Em seus passeios pelo local, também catava objetos desperdiçados que dariam formas às suas obras. Quando a porta do quarto fechava – e que ficava sem falar com ninguém, sem ver a luz do sol, jejuando por meses num suplício imposto pelo Todo-Poderoso – dava-se o “processo de transformação”[10], como ele mesmo denominava. Uma das vezes que ficou completamente recluso por vontade própria, sem contato algum, permaneceu por 7 anos no quarto-cela.
Importante ressaltar aqui que Bispo do Rosário atendia perfeitamente às exigências da Psiquiatria Moderna brasileira quanto à configuração do que se convencionou chamar de “doente mental”[11], por isso a justificativa (científica) de permanência ininterrupta . Paulo Amarante[12] destaca que as esparsas referências que se tem sobre a “clientela” dos hospitais psiquiátricos do final do séc. XIX e início do séc. XX , acusam que esta estava entre os miseráveis espalhados pela cidade, índios, negros “degenerados”, trabalhadores, camponeses, mendigos, desempregados, retirantes, ou seja, os considerados perigosos para a ordem pública e a sociedade de bem, encontravam-se longe de oferecer riscos ou apresentar transtornos mentais efetivos. Como determinava o plano político da medicina social, era preciso conter e vigiar os indesejáveis, garantir segurança e limpar/higienizar o espaço público.
Não havia nenhum rigor médico-psiquiátrico-científico para tal categorização; a denominação de “louco potencialmente perigoso” estava diretamente vinculada à condição social, isso porque, os ricos que por ventura apresentassem algum sofrimento psíquico, jamais seriam considerados perigosos e/ou encaminhados para uma instituição asilar, pelo contrário, vistos de forma humanitária, eram tratados em ambiente domiciliar com muito cuidado, sendo preservado, sobretudo, o convívio social. Logo, o “tratamento” de exclusão e contenção tinha seu alvo certo: pobres, negros e miseráveis que incomodassem de alguma forma.
A psiquiatria brasileira constituiu-se atingindo diretamente o corpo das pessoas. Ela passou a ditar as normas de conduta aos comportamentos desregrados e “anormais”, gerindo a vida desses sujeitos. Esse poder disciplinar contava com dispositivos específicos, profissionais especializados e população cuidadosamente selecionada. Na luta que a medicina travava para ter seu lugar ao sol na política nacional, obteve sucesso estabelecendo padrões sociais normalizadores, resultando numa das principais características da nossa sociedade. A criação sócio-política da categoria “doença mental” e a aplicação do tratamento moral, pautado na cientificidade (in)questionável, tratou de tornar o hospital psiquiátrico um executor da “pedagogia da ordem” e da moral, porém um fracasso como uma instância terapêutica.
Bispo achava que os psiquiatras não entendiam nada e afirmava:
Enquanto esperava a morte, preparando-se para o que ele chamava de “passagem”, Arthur Bispo do Rosário – negro, pobre e convencionalmente declarado louco – criava seu mundo particular, reinventando o olhar e a forma de viver, desconstruindo racionalidades, conceitos, estruturas e linearidades. Bispo do Rosário era o guardião do seu próprio mistério e destino.
Fez do hospital o seu lar e do seu quarto o seu universo. Trabalhava uma média de 16 horas por dia na construção desse mundo encantado. Papéis, sacos plásticos, bibelôs, lençóis , madeira velha, talheres, sucatas e lixo foram transformados em arte. O gênio criou por volta de 1.000 peças com objetos do cotidiano, como roupas e lençóis bordados[14]. Em 18 de maio de 1980, o programa fantástico[15] (da rede globo) mostrou imagens da Colônia Juliano Moreira, e pela primeira vez, Arthur Bispo do Rosário foi apresentado aos brasileiros em rede nacional. Com a divulgação, veio o reconhecimento artístico das obras, e em 1982, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ expôs parte de suas obras na mostra “À Margem da Vida”, junto com trabalhos de encarcerados, menores infratores, idosos e internos da Colônia. Posteriormente foi realizada sua primeira exposição individual, também no MAM/RJ. Em 1995, com uma vasta seleção de peças, Bispo representou o Brasil na Bienal de Veneza e obteve reconhecimento internacional.
Sua lLOUCURA foi ter criado uma estrutura simbólica própria e no seu mundo encantado, Bispo vivia ao mesmo tempo em sua prisão e sua autonomia, em sua segurança e sua incerteza. Em tempo circular, em eterno devir, num processo de morte e vida, o artista deixou o legado de lutar e ter sede não de qualquer realidade, mas de uma realidade de liberdade e de (re)nascimento contínuo.
Viva Arthur Bispo do Rosário! Viva a liberdade! Viva o movimento antimanicomial!
E que sua arte e seus (de)lírios rompam todos os muros e ecoem por todos os povos, por todos os cantos, por todos os (in)sanos…



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